quinta-feira, 2 de abril de 2009

Como uma crença afeta a vida social de uma época ?

Para Bloch, o milagre régio está articulado a uma mentalidade política, sendo expressão de um certo conceito de poder político supremo. Como rito, pode ser lido em chave política, abrangendo, ao mesmo tempo, um conjunto de idéias e de crenças mais vasto. Para além da relação orgânica do rito no bojo da sociedade, o que interessa é sobretudo entender as razões pelas quais o rito curativo, derivado de um movimento de pensamentos e de sentimentos comuns a toda uma parte da Europa, surgiu em determinado momento e não em outro, na Franca e na Inglaterra, e nao em outro lugar. Na verdade, o milagre régio, segundo Bloch, só pôde existir por causa deste conjunto de crenças: uma necessidade psicológica coletiva, enredado numa certa mentalidade, é que permitiu a emergência do rito como prática política. Daí o interesse de Bloch pelas representações coletivas que estavam na origem do toque das escrófulas: uma crença não pode subsistir se não estiver ancorada num conjunto de outras crenças que a legitimam e estruturam. Racionalista, adepto das Luzes, Bloch acredita que o rito do toque das escrófulas ecoava o complexo de crenças primitivas, semelhantes as dos povos selvagens. Em suma, o sistema psicológico que permitiu a crença no milagre das escrófulas teria, segundo Bloch, um forte parentesco com o dos povos primitivos, pois que teria a marca de um pensamento ainda pouco evoluído e mergulhado no irracional, além de existir em estado puro nas sociedades ditas primitivas.

Biografia de Bloch

BLOCH, Marc
Marc Bloch nasceu em 1886, em Lion, França, numa família judia tradicional, sendo seu pai, Gustave Bloch (1848-1923), professor na Sorbonne, especialista em Roma Antiga, que adquiriu grande nomeada. Estudou na Escola Normal Superior que, desde 1904, passou a integrar a Universidade. Marc Bloch concluiu o curso em 1908, com 22 anos de idade e seguiu a carreira do magistério. Preparou-se longamente para o doutorado, sobretudo pelo fato de que teve que interromper suas pesquisas para participar da Primeira Guerra Mundial. Finalmente, defendeu a tese de doutorado em fins de 1921. Intitulou-a Reis e servos. Embora a tanto não haja limitado a sua investigação, estava traçado o caminho que o levaria a tornar-se o principal estudioso da sociedade feudal no século XX, matéria na qual promoveu uma verdadeira revolução. O coroamento dessa investigação seria A sociedade feudal, subdividida em dois tomos, a saber: 1) Formação dos laços de dependência (Paris, 1939); e, 2) As classes e o governo dos homens (Paris, 1940).Para preparar a sua monumental obra dedicada à sociedade feudal, Marc Bloch estudou aquele período histórico nos principais países europeus. Além da obra básica, antes referida, deu conta de tais estudos em publicações autônomas. Publicou também, em 1924, estudo sobre o fenômeno dos monarcas aos quais foram atribuídos poderes sobrenaturais, intitulado Os reis taumaturgos.Em 1929, juntamente com outros estudiosos, criou a publicação Annales, que se considera haja criado nova tradição de estudos históricos na França.Marc Bloch era professor da Universidade de Strasburgo quando a região em que se encontrava foi ocupada pela Alemanha, no início do governo hitlerista, obrigando o governo francês a transferi-la para Clermont-Ferrand, localidade situada a cerca de 400 km de Paris. Com a derrota da França na Segunda Guerra, a Universidade encontra-se sob jurisdição do governo de Vichy, subserviente ao ocupante alemão, que sob pressão dos alemães inicia a perseguição aos judeus. Bloch tenta emigrar para os Estados Unidos. Entretanto, como não se dispôs a fazê-lo sem a companhia de ancestrais, que tornava sua família muito numerosa, acabou optando por engajar-se na Resistência. Preso pela Gestapo, foi executado em 1944. (Ver também A sociedade feudal).

Para uma história total

Bloch propõe um estudo de história total. Para ele, numa sociedade tudo se liga e se determina mutuamente: a estrutura politica e social, a economia, as crenças, a mentalidade, etc. O estudo das crenças ligadas aos poderes taumatúrgicas conduz ao estudo do funcionamento mais global de uma sociedade, revelando seus múltiplos aspectos.

Bloch e as origens

Bloch condena os historiadores que acreditam que as origens explicam tudo, formulando análises do tipo "as ideias revolucionárias do século XVIII provêm das idéias inglesas do século XVII". Para Bloch, isto nao explica nada, porque subsiste sempre o problema de saber por quê motivos a transmissão se operou naquele contexto, nem mais cedo, nem mais tarde, e quais foram as condições que permitiram um tal contágio. Resumindo, para Bloch, nunca um fenômeno histórico se explica plenamente senão no interior do seu contexto específico.

O povo em Bloch

Bloch não vê a ciência como uma forma relativa de organização e explicação da realidade. A nossa ciência fornece uma explicação lógica, coerente e verdadeira do mundo, de tal forma que a descrição médica das escrófulas se sobrepõe à visão dos antigos. É desta perspectiva que se pode afirmar que Os Reis taumaturgos contam a história de um erro coletivo, fruto da ignorância dos povos. Estes parecem ser, na análise de Bloch, o guardião das idéias arcaicas, aferrado às velhas tradições, e completamente impermeável aos avanços da cultura erudita.
Estarei eu enganada ?

Os limites de Bloch

Bloch era um homem do seu tempo, sujeito portanto às crenças e convicções de sua época. O pano de fundo de seu trabalho assenta-se sobre uma teoria da natureza humana: esta, imutável, teria determinadas "necessidades eternas". Necessidades psicológicas, bem entendido. O maravilhoso monárquico viria então atender tais necessidades. Aqui e ali Bloch alude ao psiquismo humano, influenciado por uma interpretação antropológica. Parece que ele partilha da idéia de que existem diferentes estágios da civilização, que correspondem, por sua vez, a determinados conjuntos de representações coletivas. Estas representações seriam similares, em suas linhas gerais, estariam presentes em todas as culturas, posto que atenderiam a necessidades psicológicas imutáveis. O que varia de uma cultura a outra é a feição peculiar que tais representações assumem. Trata-se, portanto, de buscar uma estrutura imóvel e imutável nas diferentes culturas, que se esconde por trás de formatos diferentes.
Posto isto, Bloch acredita que a crença nos milagres protagonizados pelos reis de França e Inglaterra assemelham-se a práticas existentes em outras sociedades.

Sobre crença e fé na obra de Bloch

Uma das conclusões a que se chega ao ler o livro de Bloch é que uma crença sobrevive independentemente de sua eficácia. Se hoje nós precisamos medir empiricamente esta eficácia, testando-a à luz da experiência, os homens do passado viam as coisas de modo diferente. Afinal, o conceito de veracidade é histórico e variável. A crença no milagre só existiu e sobreviveu tanto tempo porque havia a convicção profunda de que os milagres eram possíveis e faziam parte da ordem do dia. Isto nos ajuda a entender uma das principais premissas da história das mentalidades - e também da cultura - de que a realidade é construída pelo olhar das sociedades. Estudos posteriores ao de Bloch desbravaram este domínio da história, levando ao limite a idéia de que a realidade é uma função da nossa cultura: lembram-se de Colombo descrevendo as ninfas e sereias no Novo Mundo ? Pois é! Colombo via o que acreditava existir. O mesmo acontecia com as populações que acorriam aos reis taumaturgos em busca de um milagre: viam a cura, porque estavam convencidos de que haviam sido curados. A realidade é, para nós, uma projeção das nossas crenças, convicções e valores mais profundos. Que livro brilhante o do Bloch!